Luís Garcia – Os Espanhóis e os Portugueses foram imensamente brutos e selvagens na corrida às riquezas da América do Sul, em especial na busca do mítico El Dorado. Ironia do destino, pese embora de forma claramente menos selvagem, também os “hispânicos” teriam sido anteriormente vítimas da corrida ao ouro por parte da nobreza do Império Romano instalada na Península Ibérica. Sem querer fazer a apologia ou a defesa de um ou de outro, queria apenas fazer ver que a história repete-se, incessantemente, que nenhuma civilização ou nação é absolutamente má ou boa, que nenhuma civilização ou nação é apenas vítima ou agressora. Queria antes relativizar e provar o preciso contrário, que a vítima de ontem é o agressor de hoje e/ou vice-versa… veja-se o judeu vítima dos campos de concentração Nazis de ontem e o judeu de hoje elaborando o genocídio palestiniano…
Eduardo Galeano – As veias abertas da América Latina
“Com tiros de arcabuz, golpes de espada e sopros de peste, avançavam os implacáveis e escassos conquistadores da América. É o que contam as vozes dos vencidos. Depois da matança de Cholula, Montezuma envia novos emissários ao encontro de Fernão Cortez, que avança rumo ao vale do México. Os enviados presenteam os espanhóis com colares de ouro e bandeiras de penas de quetzal. Os espanhóis “deleitavam-se. Como se fossem macacos levantavam o ouro, como que se encantassem, gestos de prazer, como que se lhes renovasse e iluminasse o coração. Como que certo é que isso desejam com muita sede. Se lhes incha o corpo por isto. Como uns porcos famintos que anseiam pelo ouro”, diz o texto náhuatl, preservado no Códice Florentino. Mais adiante, quando Cortez chega Tenochtitlán, a esplêndida capital asteca de 300 mil habitantes, os espanhóis entram na casa do tesouro, “e logo fizeram uma grande bola de ouro, e puseram fogo, incendiaram, atearam fogo a tudo que restava, por mais valioso que fosse: com o que tudo ardeu. E em relação ao ouro, os espanhóis o reduziram a barras …“
José Pedro Machado – Origens do Português
“A ausência de grandes na Hispânia em estadia permanente faz-nos crer na vinda dos que procuravam estabelecer equilíbrio entre a nobreza que julgavam correr-lhes no sangue e as riquezas que não possuíam, mas que tencionavam extorquir dos terrenos e dos povos hispânicos, e tanto assim que «la riqueza legendária de España (isto é, Hispânia) en metales preciosos, especialmente en plata hacía que los cargos políticos a ocupar en ella fuesen muy codiciados», segundo palavras de Serra Ráfols, La vida en España en la Época Romana, p.54.
Nada sabemos sobre aqueles indivíduos. Impõe-se o estudo do verdadeiro tipo desses imigrantes, assim como sobre as actividades por eles desenvolvidas cá. Julgo poder provar (em Vocabulário Pré-Romano, no apêndice) que a grande atracção da Hispânia [Península Ibérica, ou seja, Portugal e Espanha] seria o ouro. O geógrafo Estrabão parece comprovar o cognome de Eldorado de certo período da Antiguidade que se poderia dar a esta região. Diz ele (III, II, 8) que as riquezas minerais do solo hispânico não estavam ocultas. Era até notável a actividade que se observava, no seu tempo, na extracção do precioso metal, da prata e do cobre. Atesta-nos ainda o insigne escritor a existência de muitas minas (a que chama Kruseîa, isto é, minas de ouro, o que prova a sua abundância na região; (…) Daí resultava que «le principal intérêt de la possession de l’Espagne résidait dans ses mines», segundo Cavaignac (La Paix Romaine, p.331).”
Graças ao contributo do meu amigo Thiago Tramontin,
quero acrescentar aqui também aquilo a que se poderia chamar a terceira geração de Eldorados por parte de colonizadores sobre autóctones: “O Projeto Carajás”:
- Projeto Grande Carajás
http://pt.wikipedia.org/wiki/Projeto_Grande_Caraj%C3%A1s
- Massacre de Eldorado dos Carajás
http://pt.wikipedia.org/wiki/Massacre_de_Eldorado_dos_Caraj%C3%A1s