Após vários dias revisitando a bela Polónia, dou por mim num comboio lituano, entusiasmado pela interessante conversa partilhada com um técnico de estufas suiço e uma sueca professora da sua língua materna, conversa que apenas foi suspensa quando os 3 olhámos pasmados para a janela direita. Eram os primeiros minutos passados em território lituano, e como presente de boas vindas, recebemos um céu pós por-do-sol de tom violeta, homogéneo, surreal, e completo com uma lua cheia brilhante e já alta… jamais tinha visto um céu assim na Lituânia, mas deste tipo de surpresas habituei-me a receber desta terra, surpresas em forma de cores e tons diversos, luzes e sombras estranhas a um mediterrânico; pelos vistos é para continuar!
O comboio trouxe-me até Vilnius, a capital pequena e bonita como um presépio, mas o meu destino final era o campo, uma herdade escondida entre lagos e florestas, longe o quanto baste da civilização. Fui então comprar um bilhete de autocarro e um gelado lituano (ah, que saudades destes gelados únicos), primeiras oportunidades para fazer renascer o meu ainda medíocre lituano. Como autocarros não costumam ter como destinos finais casas perdidas numa qualquer floresta, apanhei um para Moletai, a tal “civilização” não muito longe do meu destino final, onde à minha espera estavam amigos de amigos habitantes desta cidade; os meus amigos estavam ainda a caminho. Voltando atrás, a caminho ia eu de Moletai lendo no autocarro um livro de Saramago que tinha o poder de sorver toda a minha atenção (Levantado do Chão), quando finalmente fui distraído pela intensidade da luz que se descobriu por detrás da floresta imensa e obscura. Era de novo a lua, ainda cheia, claro está, mas agora de um brilhante e encandeante prateado, por contraste com a negridão envolvente e quase absoluta. Decidi largar o livro, pôr olhos na estrada sempre recta, na floresta negra, no velho mas confortável autocarro conduzido por um tranquilo e sorridente velhinho… só então me encontrei plenamente consciente de que tinha voltado à Lituânia. E mais: do quão me sentia tranquilo e “enquadrado”. De ansiedade mais não tinha que a agradável emoção de querer reencontrar gente querida, a minha família adoptiva, daí a pouco…
O meu palpite estava certo, a Moletai vieram me buscar Eglė e Linas, os filhos mais velhos entre os que se encontram neste momento em casa, e Taurius, marido de Agnė (uma das irmãs ausentes) e adulto necessário para conduzir o carro. Os pais a esta hora estavam seguramente a ordenhar vacas. Poucos minutos depois chegávamos “a casa”, onde reencontrei finalmente a minha pequena mas imensamente grande amiga Austeja, e os pais ainda com o cheiro a curral de animais, mas de coração e sorriso abertos…
(9-11-2011)
